Sunday, 13 July 2014

#40






























As cortinas descem. Atrás das cortinas vejo vultos que se movimentam e se diluem na luz. As pessoas levantam-se e aplaudem. À minha volta ouço esses aplausos como disparos, mãos contra mãos, braços que se afastam e se aproximam e fazem as mãos embaterem umas nas outras. Ao meu lado o som de palmas. Atrás de mim os comentários como um bloco de granito mal talhado. Vejo sorrisos satisfeitos, vejo sorrisos exaltados, histéricos, vejo sorrisos metidos à força na escuridão dormente. As cortinas sobem. A luz desagua à nossa frente. Os braços vão mais alto, muito acima das cabeças e da penumbra que paira sobre essas cabeças. Os braços empurram as mãos com mais vigor e com mais autoridade, dedos contra dedos, a latejarem toda a dor possível, toda a dor antes esquecida e agora viva e retumbante.

Uma vénia a acalmar o êxtase.

Saturday, 21 June 2014

#39


Num impulso fomos dormir a esse quarto de hotel. No corredor, à entrada do quarto, eu larguei a tua mão e empurrei-te contra a parede. Quando te pus a mão no rosto, a segurar-te e a esperar que os teus lábios se abrissem, posso dizer que senti as luzes esmorecerem. Nesse desmaio de luz, e antes que fechasses os olhos à procura da minha saliva, eu disse “língua”, disse “lábios”, disse “dedos”, disse “pele”, disse “pescoço”, disse “ombro”.  Disse-te, de lábios colados aos teus, “encontra-me”.

Thursday, 19 June 2014

#38


Nem todas as coisas ficarão bem mas algumas sim. Quando se avistam os pequenos momentos de esperança. Quando se coloca essa esperança na palma da mão e a sentimos pulsar, viva, a querer ser alguém que quer ser céu e quer ser uma nuvem que passa nesse céu. Quando sabes que tudo se desvanece sem piedade. Quando o choque e o trauma estão longe e só incomodam à noite e quando sabes que nessas noites dolorosas há uma nuvem que vai ter muito de ti dentro dela e vai passar no mesmo céu que em tempos foi negro e rude e agora é feito dum cinza azulado.

Algumas coisas ficarão bem. Descansa.

Wednesday, 18 June 2014

#37




























Antes de sair à rua olho-me no espelho. Depois de me reconhecer nesse espelho espreito pela janela e vejo linhas paralelas. Eu sou as curvas da idade a olhar linhas rectas perfeitas. Quando desço as escadas e entro na cidade sinto a magnitude e a perfeição de cada uma dessas linhas.
Eu, a caminhar na cidade, sou a idade em linha recta.

Tuesday, 17 June 2014

#36




























Uma árvore que é um caminho que é um leito seco. Quando chego ao cimo dessa árvore, quando chego ao fim desse caminho, quando alcanço o fundo desse leito, não encontro aquilo que espero. Então vou procurar outra árvore e espero que ela me sirva de caminho ou de leito. A cada nova árvore que encontro, a cada novo caminho que descubro, imagino no seu topo ou no seu fim as respostas que procuro. No padrão que é formado pelas folhas no cimo dessas árvores ou no amontoado de pedras no fundo do leito seco encontro outro tipo de respostas que trazem dentro delas outras perguntas. Um emaranhado de dúvidas, uma teia de interrogações, um quebra cabeças de questões.

Uma árvore é um caminho e é um leito seco que quer ser inundado de certezas, de vida, de futuro.  

Monday, 16 June 2014

#35





























Vim de muito longe. Agora que chego sinto que estou a milhões de quilómetros de distância. Quando me cruzo com o teu lugar e da minha janela vejo o ponto exacto do teu sorriso, o céu abre-se e as distâncias aumentam ainda mais. Agora que regresso e passo rente ao teu lugar, consigo ver o momento exacto em que os teus lábios formam um sorriso e dizem adeus. 


O céu é uma cortina azul a esconder milhões de estrelas e milhões de mundos entre nós. 

Sunday, 15 June 2014

#34





























Envia-me os teus sonhos. Envia-me os teus sonhos a cores. Envia-me, se puderes, os teus sonhos a preto e branco. Que sejam só sombras ou só paredes carregadas de sombras. Envia-me, por favor, os teus sonhos. Que sejam metade luz metade negro. Que sejam feitos de diagonais ou de paralelas. Nem que sejam feitos de céu cinza ou de edifícios sem janelas. Ou que sejam sonhos interrompidos: o respirar de alguém a dormir, o bater da porta no apartamento ao lado, os passos no corredor dentro de casa.
Envia-me, mal possas, os teus sonhos, as tuas histórias inconscientes e livres. Depressa.

Saturday, 14 June 2014

#33





























De cada uma dessas fendas sai uma voz. Em cada uma dessas vozes há apenas uma palavra.
Dizem: foge, esquece, ama, habita, vê, explora, cresce, erra, sorri. A seguir dizem: memória, experiência, ansiedade, existência, resignação. Já quase a esmorecerem, as vozes ainda conseguem sussurrar: beijo.
Das fendas abertas a galgar o pátio despido: Amor.

#32




























Quando o silêncio termina, ouço o som do vento atrás de mim. Quando sinto nas costas um empurrão não é o vento que me empurra. É o som que esse vento faz. O som que sai do vento cresce e consegue ser palpável, consegue ser um par de mãos nas minhas costas, consegue  ser o impulso que essas mãos transmitem ao meu corpo. Mãos, corpo, caminho. Corpo, caminho, destino, escolha.

Ainda que empurrado pelo som que o vento faz -  e porque não quero resistir - não receio o outro lado desta porta. Dou os passos necessários para a atravessar. Quando o outro lado me absorve e, por isso, me habita, tenho à minha volta os vultos, as manchas, as sombras e todas as criaturas dos meus sonhos. 

Agora e sempre sou a tua travessia.

Friday, 13 June 2014

#31




























São todos os dedos de todas as mãos quando é urgente que aconteça um dia bom.
São todos esses dedos agarrados às lembranças que querem ser planícies e querem ser repouso e querem ser sustento.

Dedos que se juntam e me empurram e me levantam e me devolvem àquilo que já não existe.