Sunday, 13 July 2014

#40






























As cortinas descem. Atrás das cortinas vejo vultos que se movimentam e se diluem na luz. As pessoas levantam-se e aplaudem. À minha volta ouço esses aplausos como disparos, mãos contra mãos, braços que se afastam e se aproximam e fazem as mãos embaterem umas nas outras. Ao meu lado o som de palmas. Atrás de mim os comentários como um bloco de granito mal talhado. Vejo sorrisos satisfeitos, vejo sorrisos exaltados, histéricos, vejo sorrisos metidos à força na escuridão dormente. As cortinas sobem. A luz desagua à nossa frente. Os braços vão mais alto, muito acima das cabeças e da penumbra que paira sobre essas cabeças. Os braços empurram as mãos com mais vigor e com mais autoridade, dedos contra dedos, a latejarem toda a dor possível, toda a dor antes esquecida e agora viva e retumbante.

Uma vénia a acalmar o êxtase.

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